O que foi o Movimento Manguebeat?

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O caranguejo-do-mangue tornou-se símbolo do Movimento Manguebeat
O caranguejo-do-mangue tornou-se símbolo do Movimento Manguebeat

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Por Cláudio Fernandes

Por Me. Cláudio Fernandes

O Movimento Manguebeat desenvolveu-se em Recife, capital do estado de Pernambuco, a partir de 1991, e consistiu em uma “cena cultural”, especialmente de corte musical, que misturava elementos da cultura regional de Pernambuco, como o maracatu rural, com a cultura pop, sobretudo o rock'n roll e o hip-hop. O Manguebeat também desenvolveu uma forma própria de exprimir visualmente essa mistura. O uso do chapéu de palha, típico da cultura pernambucana, aliado a acessórios da cultura pop, como óculos escuros, camisas estampadas, tênis e colares coloridos produziu um efeito visual acentuado em seus integrantes.

Os principais idealizadores da cena manguebeat foram Chico Science, Fred Zero Quatro, Renato L, Mabuse e Héder Aragão. Somaram-se a eles Jorge du Peixe, Pupilo, Lúcio Maia, Toca Ogan, Gilmar Bola 8, Gustavo da Lua, Otto, entre outros. O termo “manguebeat” é fruto de uma junção da palavra mangue, que designa um ecossistema típico da costa do Nordeste brasileiro e da cidade de Recife, com a palavra beat, do inglês, que significa batida – mas que também remete à linguagem dos códigos binários utilizados na informática: beat, bits. O caranguejo, forma de vida típica do mangue (ou da lama dos manguezais), que é capturado e vendido por trabalhadores da região, tornou-se o símbolo do Manguebeat. Inclusive, o principal manifesto desse movimento cultural, escrito por Fred Zero Quatro, tem o título de “Caranguejos com cérebro”.

A denominação manguebeat pretendia tornar clara a proposta desse manifesto. Nele, Zero Quatro afirma que as “artérias” da cultura do Recife estavam “bloqueadas”, que Recife “estava morrendo” econômica e culturalmente e que, portanto, era necessário revitalizar a cultura da cidade, misturando o tradicional com o moderno. No trecho a seguir, fica clara a proposta do autor:

Hoje, Os mangueboys e manguegirls são indivíduos interessados em hip-hop, colapso da modernidade, Caos, ataques de predadores marítimos (principalmente tubarões), moda, Jackson do Pandeiro, Josué de Castro, rádio, sexo não-virtual, sabotagem, música de rua, conflitos étnicos, midiotia, Malcom Maclaren, Os Simpsons e todos os avanços da química aplicados no terreno da alteração e expansão da consciência.” (Trecho de “Caranguejos com cérebro”).

As principais influências regionais do manguebeat, como estão destacadas no trecho do manifesto acima, foram Jackson do Pandeiro e Josué de Castro, mas também Mestre Salustiano, Ariano Suassuna e Quinteto Armorial.

As principais bandas que lideraram esse movimento em Recife foram “Chico Science e Nação Zumbi”, liderada por Chico Science, e “Mundo Livre S/A”, liderada por Fred Zero Quatro. Esses dois líderes, sobretudo Chico Science (Francisco de Assis França) – que morreu prematuramente em 1997, aos 30 anos –, mostraram grande capacidade de articulação em meio às tradições culturais do Nordeste. Chico Science incorporou muitos elementos do maracatu rural em suas músicas, tanto em componentes melódicos quanto nas letras, além de, frequentemente, fazer apresentações vestido com a colorida fantasia de caboclo do maracatu.

Foi na cidade de Recife, capital de Pernambuco, que nasceu o Movimento Manguebeat, nos anos 1990
Foi na cidade de Recife, capital de Pernambuco, que nasceu o Movimento Manguebeat, nos anos 1990

Nos versos a seguir extraídos da música “Manguetown”, de Chico Science & Nação Zumbi, fica clara a insatisfação do grupo com a situação precária de Recife na década de 1990. A cidade é referida na letra da música como “manguetown” (cidade do mangue).

Estou enfiado na lama
É um bairro sujo
Onde os urubus têm casas
E eu não tenho asas
Mas estou aqui em minha casa
Onde os urubus têm asas
Vou pintando segurando as paredes do mangue do meu quintal
Manguetown
Andando por entre os becos
Andando em coletivos
Ninguém foge ao cheiro sujo
Da lama da Manguetown

O “cheiro sujo” do mangue, “onipresente” na cidade, foi a metáfora que o manguebeat encontrou para escancarar os problemas de Recife e do Nordeste. Na segunda metade da década de 1990, os representantes desse movimento já haviam conseguido expandir sua arte para o Brasil todo, bem como para outras regiões do mundo.