O Sufismo Islâmico

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Acima, o rosário islâmico (ou wird) usado por místicos sufis
Acima, o rosário islâmico (ou wird) usado por místicos sufis

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Por Cláudio Fernandes

Por Me. Cláudio Fernandes

No mundo ocidental, sobretudo a partir da virada do século XX para o século XXI, construiu-se uma visão um tanto quanto enviesada, para não dizer negativa, da religião islâmica. Isto se deve a vários fatores, mas um dos principais é a questão das práticas terroristas perpetradas por grupos radicais islâmicos, como a Al Qaeda e o Estado Islâmico, geralmente inspirados em Sayyid Qutb, um dos ideólogos da Irmandade Muçulmana. A associação direta entre terrorismo islâmico e religião islâmica decorre também de um profundo desconhecimento da própria estrutura do islamismo. Uma das características menos conhecidas da religião islâmica é sua vertente mística, expressa no sufismo, nome que remete à túnica de lã usada pelos primeiros mestres sufis.

Todo grande sistema religioso produziu santos e místicos. Isto é, pessoas que tentaram elevar-se espiritualmente por meio da excelência do exercício das virtudes e por meio da ascese – prática de abstenção dos prazeres terrenos. O cristianismo (tanto católico e ortodoxo quanto protestante) teve seus místicos, o hinduísmo e o budismo também. Não é diferente com o Islã.

Na verdade, o termo islã é apenas uma das partes da religião que e o leva como nome. Como diz o estudioso de religiões comparadas e da sabedoria perene, William Stoddard, em sua obra Sufismo: Doutrina metafísica e via espiritual no Islã, a prática da religião islâmica “compreende, para o crente, três grandes categorias: islam (submissão à lei revelada), iman (fé na shahada) e ihsan (virtude ou sinceridade).” A prática do sufismo está relacionada a essa última categoria, a ihsan, ou prática da virtude.

Sendo assim, sufismo se organiza em torno de uma via (ou caminho) espiritual do islã, um caminho trilhado através do cultivo das virtudes. Para este caminho, os sufis dão o nome de dhirk, isto é, a prece invocatória que veicula a “lembrança de Deus”. Um dos métodos mais praticados para se atingir a dhirk é a recitação do rosário sufi, chamado de wird. Há várias fórmulas de recitação, que podem variar de tariqa para tariqa. As taricas são organizações que comportam os praticantes da mística islâmica – apesar de haver exemplos de muitas taricas ecumênicas. Toda tarica é encabeçada por um shaikh (ou cheike) que orienta os iniciados que querem se aprofundar no cultivo das virtudes e no estudo da religião. O shaikh, grosso modo, é um mestre sufi.

Acima, a imagem de um mestre sufi no mercado da cidade de Isfahan, no Irã *
Acima, a imagem de um mestre sufi no mercado da cidade de Isfahan, no Irã *

Por ser organizar desta maneira, o sufismo possui uma característica iniciática. Isto é, mantém um círculo fechado de orientação entre mestre e discípulo. Este último depende, por tanto, da iniciação do primeiro – precisa ser iniciado na prática sufi. Essa característica diferencia radicalmente misticismo islâmico do cristão, por exemplo, que não possui nada de iniciático ou esotérico.

A prática do sufismo conduziu vários místicos islâmicos à composição de obras magníficas relativas ao conhecimento religioso e interior, que são testemunhos da grandeza da civilização islâmica. A visão que temos do islamismo, distorcida pelo terrorismo – que quer reivindicar para si o monopólio das virtudes do Islã – esconde essa grandeza.

* Créditos da imagem:

Shutterstock e javarman