Genocídio cambojano

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Museu na capital do Camboja, Phnom Penh, em homenagem às vítimas do genocídio cambojano *
Museu na capital do Camboja, Phnom Penh, em homenagem às vítimas do genocídio cambojano *

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Por Daniel Neves Silva

O genocídio cambojano foi promovido pelo governo comunista do Khmer Vermelho, liderado por Pol Pot no Camboja, entre 1975 e 1979. Esse genocídio foi uma das consequências das ações tirânicas impostas no período com a aplicação de uma utopia agrária, que resultou em uma violenta repressão, marcada por trabalhos forçados, torturas e execuções. Estima-se que, pelo menos, 1,5 milhão de pessoas tenham morrido durante essa época nesse país asiático.

Khmer Vermelho e Pol Pot

O Khmer Vermelho era um dos partidos que haviam sucedido o antigo Partido Comunista da Indochina. Desde as eleições de 1955, que garantiram o governo a Norodum Sihanouk, Pol Pot, membro do Khmer Vermelho, passou a defender a tomada do poder no Camboja a partir da luta armada.

Ao tornar-se líder desse partido em 1960, Pol Pot, na clandestinidade, passou a buscar apoio para organizar uma guerrilha para colocar em prática seus objetivos quanto ao país. Durante essa época, foi iniciada uma rebelião contra o governo de Sihanouk, no entanto, foi a ocorrência de outros dois eventos determinantes que possibilitou levar o Khmer Vermelho ao poder do Camboja.

O primeiro evento foi o golpe militar, liderado por Lon Nol e apoiado pelos Estados Unidos, contra o governo de Sihanouk em 1970. Esse golpe fez com que Sihanouk formasse uma coalizão com o Khmer Vermelho para que, juntos, derrubassem o governo de Lon Nol. O outro evento foi marcado pelos bombardeios realizados pelos Estados Unidos no Camboja, como desdobramento da Guerra do Vietnã.

O fortalecimento do Khmer Vermelho a partir desses dois eventos intensificou a guerra civil no país e possibilitou a esse partido tomar o poder em 1975, quando foi conquistada a capital, Phnom Penh. Com isso, Pol Pot assumiu o governo e colocou em prática sua utopia agrária, que iniciou um período de repressão, torturas e execuções no Camboja.

Durante os anos em que Pol Pot esteve no poder, foi realizado o esvaziamento das cidades cambojanas a partir da migração da população para fazendas coletivas, onde era submetida a um regime de trabalho forçado. Além disso, houve o fechamento de hospitais, escolas, bibliotecas e monastérios, entre outros, bem como foram abolidos a propriedade privada, os salários e foi iniciada uma intensa perseguição contra minorias étnicas e grupos intelectualizados da sociedade.

Genocídio cambojano

Com a instituição do governo comunista sob a liderança de Pol Pot, foi imposta uma utopia agrária que promoveu o esvaziamento das cidades cambojanas e obrigou a população a instalar-se em fazendas coletivas, onde devia trabalhar durante quase todo o dia. Muitas pessoas migravam constantemente por ordens do Khmer Vermelho e eram obrigadas a realizar longas caminhadas.

O governo cambojano também promoveu o fechamento e isolamento total do Camboja, com as fronteiras e embaixadas estrangeiras fechadas. Todos que soubessem falar algum idioma estrangeiro eram presos e poderiam ser mortos. Além disso, professores e estudantes universitários eram perseguidos. Pessoas que demonstrassem características de ocidentalização também eram presas pelo governo.

Houve ainda expurgos internos no Khmer Vermelho. Membros que manifestassem discordância quanto às decisões tomadas por Pol Pot ou membros do partido que mantivessem contato com o Partido Comunista Vietnamita eram presos. No começo da década de 1970, por exemplo, cerca de 900 membros do partido que possuíam laços com comunistas vietnamitas foram presos.

Além disso, as minorias étnicas existentes no Camboja foram alvo da repressão do Khmer Vermelho. Nessa época, cerca de 15% da população cambojana pertencia a alguma minoria étnica existente no país, formada por vietnamitas, chineses e pelos cham.

O governo de Pol Pot realizou a expulsão de mais de 100 mil vietnamitas do país e promoveu o que foi caracterizado com um sistemático genocídio racial: de 10 mil a 20 mil vietnamitas foram mortos, o que correspondia praticamente à totalidade das pessoas dessa etnia que haviam permanecido no país.

Os chineses também foram um grupo que foi intensamente perseguido. Identificados como o estereótipo dos trabalhadores urbanos pelo Khmer Vermelho, os chineses foram sujeitos a condições piores que o restante da população. Portanto, essa perseguição a esse povo não aconteceu por questões raciais, mas por ser identificado com o trabalho urbano. Estima-se que mais de 200 mil chineses tenham morrido em consequência das péssimas condições a que foram sujeitos.

Os cham, outra etnia existente no Camboja, foram proibidos de utilizar seus trajes típicos, falar seu próprio dialeto e praticar sua religião, o islamismo. Milícias do Khmer Vermelho atacavam sistematicamente aldeias habitadas pelos cham e promoveram a destruição de cerca de cem delas. Ao todo, aproximadamente 100 mil cham morreram nesse período.

Grupos religiosos no Camboja também foram perseguidos, principalmente os budistas. Monastérios budistas foram fechados pelo governo, seus monges foram presos e milhares desses religiosos foram mortos. A perseguição ao budismo fez com que, em 1977, já não existisse nenhum monastério em funcionamento no país. Outras religiões minoritárias também sofreram repressão.

A tirania imposta por Pol Pot no Camboja encerrou-se em janeiro de 1979, quando o governo cambojano foi derrubado após o país ser invadido pelo exército vietnamita. Com o fim do seu governo, foi possível precisar as consequências dele para o país. As estimativas apontam que, pelo menos, 1,5 milhão de pessoas morreram, número que pode ainda ter alcançado 2,5 milhões.

* Créditos da imagem: Akturer e Shutterstock