Guerra da Bósnia

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Memorial bósnio para as vítimas mortas no massacre de Srebrenica
Memorial bósnio para as vítimas mortas no massacre de Srebrenica

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Por Daniel Neves Silva

A Guerra da Bósnia ocorreu de 1992 a 1995 após a declaração de independência da Bósnia-Herzegovina. O conflito foi um desdobramento das rivalidades étnicas existentes na Iugoslávia e ocorreu durante a fragmentação desse país. Resultou em mais de 100.000 mortos e ficou marcado pelos crimes de guerra, principalmente contra os bósnio-muçulmanos (bosníacos).

Formação da Iugoslávia

A presença estrangeira na região que formava a antiga Iugoslávia resultou em grandes movimentos de independência. Um exemplo de movimento foi o Mlada Bosnia, responsável pela morte do arquiduque Francisco Ferdinando em 1914, o que resultou no início da Primeira Guerra Mundial.

Com o fim da Primeira Guerra Mundial, surgiu um protótipo de Iugoslávia em 1918 chamado de “Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos”, que se tornou o Reino da Iugoslávia em 1929. Esse reino fragmentou-se durante a Segunda Guerra Mundial com a invasão italiana e alemã e só foi novamente reunificado no final do conflito. A liderança da Iugoslávia pós-guerra foi realizada pelo general Josip Broz Tito.

Tito inaugurou, em 1945, a República Socialista Federativa da Iugoslávia, uma nação que agrupava seis diferentes países: Sérvia, Croácia, Eslovênia, Montenegro, Macedônia e Bósnia-Herzegovina. As rivalidades étnicas e religiosas da região foram controladas pelo poder ditatorial de Tito. Entretanto, com a morte desse general em 1980, os movimentos nacionalistas fortaleceram-se.

O crescimento dos movimentos nacionalistas resultou no surgimento de lideranças para cada uma das diferentes etnias, com destaque para Franjo Tudman (croata), Slobodan Milosevic (sérvio) e Alija Izetbegovic (bósnio). O debate político na Iugoslávia nos finais da década de 1980 e início da década de 1990 voltava-se totalmente para a questão étnica. O fim da influência soviética, após o seu colapso em 1991, foi o último elemento que impulsionou os movimentos de independência.

Fragmentação da Iugoslávia

A fragmentação da Iugoslávia iniciou-se a partir das declarações de independência da Eslovênia e Croácia em 1991. Essas declarações foram respondidas com ataques de forças iugoslavas aos dois países. O conflito na Eslovênia durou apenas 10 dias, e o conflito na Croácia durou até 1995. Um terceiro país declarou-se independente ainda em 1991: a Macedônia.

Nesse contexto, o presidente bósnio, Alija Izetbegovic, reforçou o desejo de declarar a independência da Bósnia-Herzegovina. O movimento de independência da Bósnia era mais complexo pela grande diversidade étnica existente no país, pois “em 1991, 44% dos 4,4 milhões de habitantes eram bósnio-muçulmanos, 31% sérvios e 17% croatas” |1|.

Os três maiores grupos étnicos da Bósnia possuíam interesses diversos: os bosníacos defendiam a independência total da Bósnia e a implantação de um governo encabeçado por bosníacos; os sérvios defendiam a anexação dos territórios bósnios onde a maioria da população era sérvia à Iugoslávia; e os croatas defendiam a anexação total da Bósnia à Croácia.

Os sérvios da Bósnia eram representados por Radovan Karadzic, que defendia uma postura agressiva contra a população bosníaca e ameaçava iniciar guerra caso a Bósnia declarasse sua independência. Nos meses finais de 1991 e meses iniciais de 1992, tropas sérvias foram deslocadas para os arredores de Sarajevo, cercando totalmente a cidade. A guerra iniciou-se em abril de 1992, quando a população sérvia de Sarajevo passou a atacar a população bosníaca.

Acontecimentos da Guerra

Radovan Karadzic, líder dos sérvio-bósnios, foi condenado a 40 anos de prisão pelo genocídio realizado por suas tropas na guerra *
Radovan Karadzic, líder dos sérvio-bósnios, foi condenado a 40 anos de prisão pelo genocídio realizado por suas tropas na guerra *

Com a guerra iniciada, os exércitos sérvio-bósnios impuseram-se contra as mal preparadas forças bosníacas. A cidade de Sarajevo, capital da Bósnia, estava completamente cercada pelos sérvio-bósnios, que também avançavam por outras partes do território bósnio.

A guerra ficou marcada pela tentativa sérvia de realizar a limpeza étnica da Bósnia a partir do extermínio da população bosníaca, como evidencia o relato de Gustavo Silva sobre um massacre realizado em um vilarejo nas proximidades de Srebrenica:

Centenas de homens foram capturados próximos aos vilarejos de Nova Kasaba. Eles foram levados ao estádio de futebol da cidade. Um avião americano espião registrou uma foto aérea do local, onde seiscentos homens estavam concentrados no gramado. Quando o mesmo avião sobrevoou a área novamente, dias depois, os homens não estavam mais lá, e as áreas ao redor do estádio pareciam diferentes: a vegetação havia sumido, e os sinais de escavações recentes eram evidentes. A conclusão: eram covas coletivas|2|.

O controle sérvio-bónio na guerra durou até meados de 1994, quando a Sérvia foi forçada pelas potências ocidentais a retirar seu apoio às tropas de Radovan Karadzic e Ratko Mladic (general dos exércitos sérvio-bósnios). Além disso, a entrada de tropas estrangeiras no exército bósnio, principalmente iranianas, e o apoio financeiro dos países muçulmanos contribuíram para que a Bósnia revertesse o quadro negativo do início da guerra.

As tropas sérvias posicionadas no cerco a Sarajevo bombardearam a cidade com artilharia pesada durante meses, e artilheiros de elite receberam ordens de atirar indiscriminadamente contra civis que fossem avistados andando pelas ruas da cidade. Além disso, em vilarejos no interior da Bósnia, foram registrados inúmeros massacres, sendo o mais conhecido deles o que aconteceu na zona de segurança de Srebrenica.

Ao final da guerra, grupos armados sérvio-bósnios invadiram a zona de segurança e realizaram um massacre, que resultou na morte de mais de 8.000 bosníacos. Parte da população bosníaca iniciou uma fuga desesperada pelas florestas da região para sobreviver. Os sobreviventes tiveram que caminhar por mais de 30 quilômetros em meio às florestas.

O isolamento das forças sérvio-bósnias levou Karadzic a aceitar a negociação de paz no Acordo de Dayton, em 1995. Nesse acordo foram estabelecidos termos para a Bósnia independente e para manter o convívio pacífico no país. Foram criadas também duas federações internas para agrupar os diferentes grupos étnicos: a Federação da Bósnia e Herzegovina, sob controle de bosníacos e croatas, e a República Sérvia da Bósnia, sob controle dos sérvio-bósnios.

Muitos dos responsáveis pelos crimes de guerra realizados na Bósnia foram julgados em tribunais internacionais, e muitos foram condenados por genocídios e outros crimes de guerra. Karadzic, por exemplo, foi condenado a 40 anos de prisão.

|1| SILVA, Gustavo. Da rosa ao pó: Histórias da Bósnia pós-genocídio. Rio de Janeiro: Tinta Negra Bazar Editorial, 2011, p.17.
|2| Idem, p.81

*Créditos da imagem: Northfoto e Shutterstock


Por Daniel Neves
Graduado em História