Guerra Civil na Síria

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Acima, mapa da Síria, destacado em vermelho
Acima, mapa da Síria, destacado em vermelho

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Por Me. Cláudio Fernandes

A Guerra Civil na Síria teve início em março de 2011 e segue sem término até os nossos dias (2016), configurando um dos principais conflitos do século XXI. Essa guerra caracteriza-se não apenas pelos conflitos internos entre as forças oficiais do presidente Bashar al-Assad e as diversas facções rebeldes armadas, mas também pela assistência que potências internacionais, como Estados Unidos, Rússia, Irã e Arábia Saudita, dão aos dois lados da guerra de acordo com os seus interesses. Além disso, há ainda um terceiro fator: a expansão vertiginosa pelo território sírio do autoproclamado Estado Islâmico, que luta tanto contras as forças de Assad quanto contra as facções rebeldes. Para compreendermos como a República Árabe da Síria chegou a essa situação fatídica, precisamos remontar à atmosfera política que cobria o Oriente Médio à época da Guerra Fria.

Com o fim da Segunda Guerra Mundial, o mundo todo passou a viver a tensão da Guerra Fria, período em que se acentuaram as divergências ideológicas e políticas entre as superpotências União Soviética e Estados Unidos. Ocorreu que, especificamente na região do Oriente Médio, a tensão recebeu configurações um tanto quanto diversas, isto é, o reconhecimento de Israel como um Estado independente, na região da Palestina, provocou uma enorme tensão político-religiosa com as nações árabes recém-formadas naquela mesma região, como Egito, Líbano e Síria.

Logo em 1948 houve a primeira guerra entre Israel e as nações árabes – o primeiro de numerosos conflitos que ocorreriam nas décadas seguintes. No fim dos anos 1950, houve a criação da República Árabe Unida, isto é, um governo unificado entre a Síria e o Egito, que tinha por objetivo formar uma grande nação muçulmana no Oriente Médio. A Síria era representada pelo partido Baath, enquanto o Egito tinha como principal liderança o pan-arabista Gamal Abdel Nasser. Contudo, esse projeto não teve grande futuro e, em 1961, a Síria rompeu com o Egito por meio de um golpe militar que lhe deu novamente o status de república independente.

Em 1971, o oficial da aeronáutica síria Hafez al-Assad, por meio de outro golpe Estado, tomou o poder na Síria com o apoio dos militares e de parte do setor político. Hafez pertencia à minoria alauita, ou seja, não era nem sunita e nem xiita, mas descendia de um núcleo do islamismo que idolatrava o califa Ali, um dos sucessores diretos de Maomé, como uma deidade (ser divino). Hafez, desde os primeiros anos de seu governo, teve que lidar com forte oposição vinda da maioria sunita da Síria. Seu governo foi marcado por intensa repressão e chegou a massacrar repetidas vezes milhares de pessoas em cidades como Hama, como aconteceu em 1982. Foi também Hafez que levou a Síria à guerra do Yom Kippur contra Israel, em 1973, fracassando nessa empreitada.

O governo de Hafez só teve fim em 2000 com sua morte. Em seu lugar, tomou posse seu filho, Bashar al-Assad, com então 34 anos. Assad prosseguiu com a política do pai, mantendo o mesmo sistema repressor e os mesmos interesses econômicos, sobretudo no que se refere ao gás natural, que ainda hoje interessa às potências que lhe dão ajuda militar, como a Rússia e o Irã. A grande instabilidade chegou à Síria após a retirada das tropas americanas do Iraque (onde o sistema do também ditador Saddan Hussein havia caído) em 2011. Com a saída dos Estados Unidos do Iraque, as facções jihadistas, como a Al-Qaeda, passaram a atuar tanto no Iraque quanto na Síria, onde foi montado um núcleo chamado Frente Al-Nursa.

Ao mesmo tempo que os jihadistas passaram a avançar sobre o governo de Bashar al-Assad, outras facções sunitas, estimuladas pelos levantes da Primavera Árabe, passaram a enfrentar o exército sírio com o objetivo de tirar Assad do poder. Entre essas facções, as principais são: Ahar al-Sham, Jaich al-Islam e Frente do Sul. Essas facções recebem dinheiro, equipamentos e treinamento dos Estados Unidos e da Arábia Saudita, que têm interesse na queda de Assad. Já o governo do ditador sírio recebe auxílios semelhantes da Rússia e do Irã, que têm interesse em sua permanência. Todavia, muitos dos combatentes associados às facções rebeldes são mercenários (recebem para lutar) e, não raro, são cooptados pelo Estado Islâmico, que, por sua vez, nasceu de uma ruptura com o braço da Al-Qaeda no Iraque. Como não recebiam mais ordens da alta cúpula da organização de Bin Laden, os membros do Estado Islâmico passaram a atuar por conta própria na Síria, rivalizando, assim, com a Al-Nusra.

Esse é o cenário complexo da guerra civil na Síria. Com o grande avanço do Estado Islâmico no norte desse país, algumas decisões mais pontuais foram tomadas a partir de 2015. Um exemplo são as intervenções aéreas da Rússia nessa região desde setembro de 2015. Além disso, há ainda a situação da minoria curda e de seu exército independente, que atua na fronteira entre a Síria e a Turquia, região essa que também é assolada pelo Estado Islâmico. Calcula-se que aproximadamente 140.000 pessoas já morreram nessa guerra até o presente momento e dois milhões ficaram desabrigados ou foram forçados a emigrar do país.