Viagens de Hans Staden ao Brasil

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A chegada dos portugueses em 1500 motivou outros exploradores como Hans Staden a virem ao Brasil em exploração.
A chegada dos portugueses em 1500 motivou outros exploradores como Hans Staden a virem ao Brasil em exploração.

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Por Daniel Neves Silva

Hans Staden foi um mercenário que nasceu em Homberg, na Alemanha, e veio ao Brasil em duas viagens durante 1548 e 1549. A segunda viagem de Hans Staden ficou conhecida por causa dos nove meses em que foi prisioneiro dos indígenas Tupinambás. Nesse período como prisioneiro, Hans Staden deixou valioso registro a respeito dos rituais antropofágicos (rituais de canibalismo) dos indígenas.

Hans Staden, que veio ao Brasil à procura de riquezas, registrou suas experiências após retornar à Alemanha em um livro lançado em 1557. O livro de Hans Staden é conhecido como “Duas Viagens ao Brasil”, mas o nome original da obra de Hans Staden é “História Verídica e descrição de uma terra de selvagens, nus e cruéis comedores de seres humanos, situada no Novo Mundo da América, desconhecida antes e depois de Jesus Cristo nas terras de Hessen até os dois últimos anos, visto que Hans Staden, de Homberg, em Hessen, a conheceu por experiência própria, e que agora traz a público com essa impressão”.

Viagens de Hans Staden

As viagens de Hans Staden aconteceram entre 1547 e 1549, portanto, em uma época onde a colonização portuguesa do Brasil ainda era bastante tímida. A exploração do pau-brasil era basicamente a grande atividade econômica do período e, nessa época, Portugal estava implantando o Governo-geral. A presença portuguesa localizava-se apenas no litoral, em pequenas cidades.

Os relatos desse período mostram os primeiros contatos com os indígenas e a hostilidade de alguns desses povos. Entretanto, é preciso considerar que os relatos dos europeus sobre os indígenas são carregados da moral religiosa e sua visão etnocêntrica.

Primeira Viagem

A primeira viagem de Hans Staden aconteceu no primeiro semestre de 1547, a bordo de um navio português que vinha ao Brasil com objetivos comerciais, entretanto, caso esse navio avistasse embarcações francesas, possuía ordens para atacar. Isso acontecia porque, segundo o Tratado de Tordesilhas, parte do continente americano havia sido determinada como posse portuguesa. Assim, qualquer outro país que estivesse em terras portuguesas seria considerado invasor. A função de Hans Staden nessa expedição era a de artilheiro.

Nessa primeira viagem, Hans Staden esteve em Pernambuco, mas teve de retornar a Portugal após o navio que estava ter sido danificado em batalha contra um navio francês. Chegaram a Lisboa em outubro de 1548.

Segunda Viagem

A segunda viagem de Hans Staden aconteceu logo após a Páscoa de 1549, a bordo de um navio espanhol que zarpou de Sevilla. O objetivo era ir à foz do Rio da Prata para alcançar as terras do Peru.

Na segunda viagem, Hans Staden relatou que foram obrigados a desembarcar na ilha de Santa Catarina após uma tempestade. Na ilha de Santa Catarina, aguardaram os outros dois navios aparecer (os navios perderam-se durante a tempestade). Após a chegada do segundo navio (o terceiro nunca apareceu), Hans Staden contou que foram feitos os preparativos para continuar a viagem, porém, mais um infortúnio aconteceu: o navio principal afundou (Staden não deu detalhes de como isso aconteceu).

Após morar por dois anos na ilha de Santa Catarina, Hans Staden contou que eles decidiram partir no navio que havia restado para São Vicente, mas o navio chocou-se contra os rochedos e também naufragou no litoral de São Vicente. Ali, Hans Staden foi convidado pelos portugueses para trabalhar como artilheiro na defesa do forte de Bertioga.

Hans Staden trabalhou durante dois anos como artilheiro no forte de Bertioga. Lá os portugueses lutavam contra os Tupinambás. Staden foi capturado pelos índios Tupinambás após entrar na floresta fechada para caçar. Ele foi considerado inimigo dos Tupinambás por estar com os portugueses.

Os Tupinambás, em geral, matavam os seus prisioneiros em rituais de antropofagia, também conhecidos como rituais de canibalismo. A crença dos Tupinambás era a de que, ao comer o adversário, estariam apropriando-se de suas qualidades. A partir desse momento, Hans Staden viveu durante nove meses como prisioneiro. Foi agredido muitas vezes e constantemente ameaçado de ser morto em um ritual de antropofagia. Relatou guerras entre tribos e deixou muitos detalhes da cultura dos Tupinambás.

Depois desses nove meses, Hans Staden foi libertado pelos franceses, que negociaram com os indígenas a libertação do alemão. Guilherme de Moner, capitão do Catherine de Vatteville, foi o responsável por negociar a libertação de Hans Staden. Chegou à Europa no dia 20 de fevereiro de 1555, na cidade de Honfleur, na França.

Trechos do relato de Hans Staden

  • Sobre os dois anos que viveu na ilha de Santa Catarina:

Ficamos dois anos na selva e sobrepujamos muitos perigos. Passamos muita fome, tivemos de comer lagartos e ratos do campo e outros animais desconhecidos que conseguíamos apanhar, também animais com carapaças que se agarravam às pedras na água e outros alimentos estranhos. No início os nativos nos traziam bastantes mantimentos, até conseguirem de nós bastante objetos em troca. Depois, a maior parte se mudava para outros lugares|1|.

  • Sobre a sua captura pelos Tupinambás:

Quando eu estava andando na floresta, eclodiram grandes gritos dos dois lados da trilha, como é comum entre os selvagens. Os homens vieram na minha direção e eu reconheci que se tratava de selvagens. Eles me cercaram, dirigiram arcos e flechas contra mim e atiraram. Então gritei: “Que Deus ajude minha alma!”. Nem tinha terminado estas palavras, eles me bateram e empurraram para o chão, atiraram e desferiram golpes de lança sobre mim. Feriram-me – Deus seja louvado – apenas numa perna, mas me arrancaram a roupa do corpo, um deles o casaco, um outro, o chapéu, o terceiro, a camisa, e assim por diante|2|.

  • Sobre as ameaças que recebeu dos indígenas:

No interior da caiçara as mulheres se jogaram sobre mim, golpearam-me com os punhos, arrancaram-me a barba e disseram na língua delas: “Xe nama poepika aé!”, “com este golpe vingo o homem que foi morto pelos teus amigos”.

Nisto me levaram para a cabana onde tive de deitar numa rede, e mais uma vez vieram as mulheres e bateram em mim, arrancaram meus cabelos e mostraram-me de modo ameaçador como pretendiam me comer|3|.

  • Descrição de Hans Staden sobre os indígenas:

“São pessoas bonitas de corpo e estatura, tanto homens quanto mulheres, da mesma forma que as pessoas daqui, exceto que são bronzeadas pelo sol, pois andam todos nus, jovens.”

|1| STADEN, Hans. Duas viagens ao Brasil: primeiros registros sobre o Brasil. Porto Alegre: L&PM, 2011, p.51-52.
|2| Idem, p. 61-62.
|3| Idem, p. 69.


Por Daniel Neves
Graduado em História