Tenentismo

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O Forte de Copacabana foi cenário da primeira revolta tenentista durante a década de 1920
O Forte de Copacabana foi cenário da primeira revolta tenentista durante a década de 1920

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Por Daniel Neves Silva

O tenentismo foi um movimento surgido entre os militares brasileiros que questionava as práticas políticas do período da Primeira República. Esse movimento foi caracterizado pela adesão de militares de baixa patente e, em diversos momentos ao longo da década de 1920, partiu para o confronto armado contra os governos instituídos.


O que foi o tenentismo?

O tenentismo foi um movimento político e militar organizado por jovens oficiais da baixa oficialidade do exército brasileiro contra o regime político da Primeira República. Esse movimento era integrado em grande parte por tenentes insatisfeitos com o andamento da política brasileira e com o domínio imposto pelas oligarquias.

A década de 1920, do ponto de vista retrospectivo, é vista como um momento de crise para a Primeira República. O surgimento do tenentismo intensificou o desgaste desse regime. Tudo começou durante o processo da campanha presidencial travada entre Artur Bernardes e Nilo Peçanha em 1922.

A candidatura lançada por Artur Bernardes contava com o apoio das oligarquias paulista e mineira. A candidatura de Nilo Peçanha, por sua vez, contava com o apoio de uma série de outras oligarquias menores, que estavam insatisfeitas com o domínio dos paulistas e mineiros sobre a política brasileira. A campanha eleitoral de Nilo Peçanha recebeu o nome de Reação Republicana e procurou conquistar o voto das classes médias urbanas.

Realizaram comícios em diferentes partes do país e defendiam o combate ao crescimento da inflação e uma proposta contra a atuação dos grandes estados na defesa do café, exigindo que outros produtos nacionais recebessem maior atenção. A composição da agenda política de Nilo Peçanha, em grande parte, foi influenciada pela oligarquia gaúcha.

Foi durante esse processo eleitoral que a relação de Artur Bernardes com a baixa oficialidade do exército brasileiro desgastou-se. Cartas falsas supostamente escritas por Artur Bernardes criticando membros do exército foram divulgadas em outubro de 1921. Pouco tempo depois, foi anunciado que as cartas eram falsas, no entanto, a relação do exército com Artur Bernardes já estava bastante desgastada.

A situação agravou-se quando o governo de Epitácio Pessoa ordenou o fechamento do Clube Militar e a prisão de Hermes da Fonseca após críticas do Clube Militar contra medidas do governo vigente. A junção desses fatores levou ao surgimento do tenentismo como movimento de oposição aos governos oligárquicos.

O tenentismo enquanto movimento atuou de 1922 a 1927 e, ao longo desse período, uma série de rebeliões nomeadas como levantes tenentistas ocorreram. A primeira grande revolta tenentista veio poucas semanas após o fechamento do Clube Militar. Ela ficou conhecida como Revolta do Forte de Copacabana e ocorreu no dia 5 de julho de 1922.

Outros movimentos desse período foram a Comuna de Manaus e a Revolta Paulista de 1924, liderada por Isidoro Dias Lopes e apoiada por Miguel Costa. Os desdobramentos da Revolta Paulista de 1924 deram início à Coluna Costa-Prestes, quando os tenentistas paulistas uniram-se com tenentistas rebelados no Rio Grande do Sul.

A Coluna foi a maior revolta realizada pelos tenentistas e atuou entre 1925 e 1927 durante os governos de Artur Bernardes e Washington Luís. As tropas da Coluna marcharam por mais de 25.000 quilômetros, cruzando doze estados brasileiros e lutando algumas vezes contra pequenos grupamentos das tropas federais. A Coluna desfez-se em 1927 quando se exilaram na Bolívia.


Quais eram os ideais dos tenentistas?

Ideologicamente falando, os tenentistas colocavam-se como opositores do regime existente na Primeira República, sobretudo se opunham ao domínio que as oligarquias tinham na política brasileira, pois alegavam que o controle das oligarquias, sobretudo no interior, contribuía para agravar o quadro de desigualdade social existente no país.

Nesse sentido, os tenentistas são vistos pelos historiadores como salvacionistas, pois se colocavam como os salvadores da República na luta contra os oligarcas. A insatisfação dos militares ia além das questões diretamente relacionadas à política, pois também envolvia o descontentamento dos militares com os “poucos investimentos” dedicados à corporação. Assim, a atuação dos tenentistas procurava causar mudanças tanto na política quanto na própria corporação.

Outro ponto importante da ideologia tenentista é a crítica ao sistema federalista que vigorava no Brasil desde 1889. Os tenentistas afirmavam que o federalismo gerava fragmentação política, e esta permitia o fortalecimento dos grupos políticos regionais, visto como o grande mal da república brasileira.

Os tenentistas, em geral, defendiam a aplicação dos princípios do liberalismo no Brasil. Os historiadores, porém, apontam a contradição existente nos tenentistas, pois o princípio do liberalismo, para eles, estava resumido a questões econômicas, uma vez que politicamente eram defensores da imposição de uma república autoritária – o que vai diretamente contra os princípios do liberalismo em si, que prega a defesa das liberdades individuais e democráticas.

Apesar disso, uma observação importante a ser feita é que o movimento tenentista, apesar de majoritariamente liberal, possuía quadros que defendiam outras propostas políticas, como os que defendiam o comunismo ou políticas mais à esquerda.

As propostas dos tenentistas para a economia defendiam a ideia de realizar o desenvolvimento econômico do Brasil a partir da modernização e industrialização da economia, sobretudo para combater a dependência excessiva do café. Propunham também alterações no sistema educacional, no sistema eleitoral e atacavam os altos níveis de desigualdade existentes no Brasil.

A atuação dos tenentistas, no entanto, foi desorganizada, pois não houve um projeto político que pensasse a imposição de seus ideais e nem que planejasse a ascensão (politicamente falando) no poder do Brasil. Assim, a atuação dos tenentistas ocorreu muito mais pela ação – as diversas revoltas exemplificam isso – do que pelo discurso organizado. As disputas políticas desse período fizeram com que os tenentistas estivessem diretamente envolvidos com a Revolução de 1930, golpe que colocou fim à Primeira República.