Crise do Império Romano

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Ruínas do mercado romano, localizada na cidade de Roma, na Itália
Ruínas do mercado romano, localizada na cidade de Roma, na Itália

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Por Daniel Neves Silva

A partir do terceiro século d.C., o Império Romano iniciou sua fase de declínio e decadência, que acabou resultando na fragmentação de sua parte ocidental. Às crises econômica e política, somou-se a chegada dos germânicos, levando ao fim da parte ocidental do império e à ocupação de seu território por esses povos.

As razões da crise romana

Até parte do século II d.C., o Império Romano viveu um período de relativa paz e grande prosperidade, que ficou conhecido como Paz Romana. O final desse período foi marcado pela morte do imperador Marco Aurélio em 180 d.C., inciando-se, assim, a decadência romana, que se estendeu até a fragmentação da parte ocidental do império em 476.

A decadência do Império Romano estava relacionada, primeiramente, com a crise do sistema escravista, iniciada na transição do século II para o século III d.C. Esse sistema era parte essencial da economia romana, que contava com a renovação da população de escravos do império por meio das guerras de conquista e expansão, típicas da história romana.

No entanto, essas guerras de conquista não aconteciam desde o século II d.C., com a última grande vitória romana contra os dácios em 106 d.C., durante a Batalha de Sarmizegetusa. Após essa posse de parte da Dácia, os romanos não realizaram novas conquistas e, com isso, a obtenção de novos escravos foi interrompida.

Com a diminuição na quantidade de escravos e como não havia a renovação natural dessa população, a disponibilidade dessa mão de obra no império começou a diminuir. Assim, esse processo afetou a economia romana e causou a diminuição de sua produtividade, provocando, consequentemente, um aumento no custo de vida em todo o império.

Além da crise do sistema escravista e da economia, a crise política também contribuiu para o enfraquecimento do império. Esse período na história romana, entre o século III e V, foi marcado por uma intensa disputa pelo poder, com conspirações sendo realizadas contra os imperadores, o que gerava uma instabilidade que enfraquecia a administração romana.

Essa crise política estava relacionada, principalmente, com o fortalecimento da figura do imperador com a profissionalização do exército romano. Como a continuidade do poder em Roma não acontecia necessariamente a partir da hereditariedade, e sim pela influência, os generais, muitas vezes, conspiravam para garantir uma posição de poder.

Por fim, o crescimento do cristianismo foi um outro fator de relevância para o agravamento dessa crise, uma vez que o avanço dessa religião provocou o enfraquecimento da figura do imperador, já que os cristãos não aceitavam prestar-lhe culto religioso, como era o costume na época. Além disso, os cristãos eram contrários à escravidão, e o crescimento dessa religião contribuiu para enfraquecer ainda mais uma instituição já debilitada.

Migrações germânicas

Todos esses fatores foram ampliados com a ação dos povos germânicos que, especialmente a partir do século II d.C., atacavam constantemente as fronteiras do Império Romano. Os germânicos, que constituíam uma variedade de povos, habitavam as regiões ao norte da Europa (principalmente onde hoje fica a Alemanha) e desde muito já lutavam contra os romanos.

Os povos germânicos eram chamados pelos romanos de “bárbaros”, termo de conotação pejorativa que faz menção ao fato de esses povos não possuírem as mesmas práticas e cultura dos romanos. A partir do século II d.C., as migrações germânicas intensificaram-se e, com o enfraquecimento do poder romano, as fronteiras do império ficaram mais frágeis.

O aumento nas migrações dos povos germânicos, segundo os historiadores, aconteceu pelas seguintes razões:

  • Crescimento populacional: o aumento populacional levou os germânicos a procurarem por melhores terras que suportassem o tamanho de suas populações.
  • Resfriamento do clima: os historiadores afirmam que, nesse período, o clima no norte da Europa passou por um resfriamento que diminuiu a quantidade de terras agrícolas disponíveis.
  • Fuga: a chegada de povos mais fortes e poderosos – como os hunos – levou diferentes povos germânicos a migrarem para fugir desse domínio.

À medida que o exército romano enfraquecia-se, fruto da crise econômica principalmente, a intensidade dos ataques germânicos aumentava. Assim, gradativamente, diferentes povos germânicos começaram a invadir e saquear as terras romanas. O historiador Jacques Le Goff refere-se a algumas dessas invasões que aconteceram nos territórios romanos durante esse período:

Vândalos, alanos e suevos assolam a Península Ibérica. A breve instalação dos vândalos no sul da Espanha batiza, no entanto, a Andaluzia. Já em 429, os vândalos, únicos bárbaros a possuir uma frota, vão para a África do Norte e conquistam a província romana da África, ou seja, a Tunísia e a Argélia Oriental. Os visigodos, após a morte de Alarico, retrocedem da Itália para a Gália em 412 e depois, em 414, para a Espanha, de onde recuam em 418 para instalar-se na Aquitânia […]. Ao Norte, bárbaros escandinavos, anglos, jutos e saxões, depois de uma série de incursões na Bretanha (Grã-Bretanha), acabam por ocupá-la entre 441 e 443. Uma parte dos bretões derrotados atravessa o mar e instala-se na Armórica, que se torna a Bretanha [norte da França]|1|.

Esse trecho destacado abordou, portanto, a época em que essas terras, que originalmente eram dominadas pelos romanos, passaram a ser atacadas e ocupadas pelos povos germânicos. Esse processo, conforme mencionado, aconteceu devido ao enfraquecimento do exército romano, consequência direta da crise econômica. O trecho também trata de uma pequena parcela de uma grande variedade de povos que atacaram as terras romanas.

A trajetória do Império Romano do Ocidente (o império estava dividido em parte ocidental e oriental desde 395) chegou ao fim quando a cidade de Roma foi atacada, em 476, pelos Hérulos, e o imperador Rômulo Augusto foi destituído do cargo de imperador. A parte ocidental do Império Romano deu origem aos reinos germânicos.

Consequências

A chegada dos povos germânicos acabou intensificando a crise do Império Romano, pois os centros produtores de grãos, por exemplo, foram atacados, o que levou ao abandono desses locais ou ao seu saque. Além disso, a violência trazida pelos ataques germânicos afetou as rotas comerciais existentes no império. A junção desses dois fatores – redução na produção agrícola e fim das rotas comerciais – acarretou o desabastecimento das cidades.

Com as cidades desabastecidas, a fome por esses locais propagou-se, e tornou-se comum a disseminação de doenças graves como a peste. Além disso, as cidades romanas tornaram-se alvos, uma vez que acumulavam grandes riquezas que atraíam os ataques dos germânicos interessados nos saques. Portanto, a chegada desses povos causou uma redução populacional e uma ruralização na Europa Ocidental.

|1| LE GOFF, Jacques. A civilização do Ocidente medieval. Petrópolis: Vozes, 2016, p. 27.

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